Lições sobre rentabilidade em empreendimentos

Contexto

Se você tem um empreendimento com um ano ou dois de existência, com certeza duas coisas já aconteceram com você: A fase de oba-oba já passou e o dinheiro do capital inicial (próprio ou de terceiro) já acabou. Esses dois fatos fizeram você chegar a possível conclusão de que o seu negócio não é tão divertido como gostaria e fizeram você se questionar também sobre "e agora, como eu posso de fato gerar/ganhar dinheiro com esse negócio? "

Com esse último pensamento mencionando acima, talvez você retruque dizendo: "Tá, mas pensei muito bem nisso em meu plano de negócios!". Mas meu caro amigo, infelizmente mesmo que você tenha feito um brilhante e exaustivo plano de negócios, o que realmente causa a rentabilidade são as decisões tomadas no dia-a-dia de operacões de sua empresa. Portanto, se você pretende iniciar um empreendimento ou já está na fase inicial de algum, saiba que além da paixão e sangue nos olhos (que são importantíssimas para um empreendedor), você precisa entender e se preparar para:

Passar por sucessivos Pontos de Fechamentos

Um dos primeiros obstáculos que será necessário suplantar tão logo o negócio seja iniciado é conhecido por "ponto de fechamento". No início de um empreendimento, é comum um empreendedor neglicenciar o ponto de fechamento, até mesmo porque, para um empreendedor o seu negócio não tem chances de fechar.

Em linhas gerais, o ponto de fechamento indica até que momento vale a pena ou é possível ter o negócio em funcionamento. Essa abordagem toma o raciocínio básico de quanto tempo uma empresa é capaz de sobreviver mesmo em um cenário de faturamento baixo (ou até mesmo nulo - como é o caso de mercados sazonais). A análise de ponto de fechamento também leva em consideração o quanto a empresa têm fôlego para liquidar suas dívidas.

Manter o negócio com uma alta liquidez, é a forma saudável de lidar com esse risco de ponto de fechamento. Liquidez nesse caso significa a velocidade ou facilidade que a sua empresa tem para converter em dinheiro os bens e direitos contidos em seu ativo para saldar as suas obrigações (dívidas). Por isso, uma boa maneira que um empreendedor tem para manter essa liquidez alta, é tendo bastante cautela ao fazer imobilizações em seu ativo.

Ter disciplina para atingir o Ponto de Equilíbrio

Uma vez vencida uma possível fase de baixo faturamento ou faturamento nulo, o próximo desafio é fazer com que a engrenagem do seu negócio, consiga atingir o equilíbrio de receitas suficientes para cobrir as despesas. Observe que atingir o ponto de equilíbrio, siginifica basicamente que seu negocio está apenas sobrevivendo, portanto não há lucro ainda nessa fase. É difícil prever quando sua empresa atingirá o ponto de equilíbrio, mas via de regra observa-se que normalmente o tempo varia de 06 meses as 12 meses de operação para se alcançar o ponto de equilíbrio. Portanto, é vital que você crie uma estratégia de capital inicial e capital de giro para passar, ou melhor, sobreviver por essa fase.

Entender que Lucratividade nem sempre quer dizer Rentabilidade

Basicamente, um empreendimento é construído sobre algum tipo de capital. Em termos contábeis, o capital, seja ele próprio ou de terceiros, é considerado como uma dívida que a empresa tem para com os sócios investidores. Esse investimento é feito em troca de alguma expectativa de ganho futuro (lucro). Na prática o lucro precisa ser construído continuamente no dia-a-dia de operações de algum produto/serviço. É importante lembrar que normalmente, a visão básica de atribuição de lucro ou prejuízo de produto/serviço é feita com base no cálculo do Preço de Venda menos os Custos necessários para a existência do mesmo.

Contudo, ter lucro por uma venda ou, simplesmente apresentar um saldo positivo no seu fluxo de caixa mensal, não necessariamente significa que seu negócio é rentável. Ter rentabilidade, significa que toda a operação do negócio, foi capaz de gerar sobras necessárias para liquidar a dívida juntos aos investidores. Claro que existem diferentes tipos de contratos de investimentos, uns consideram com mais benevolência os riscos do negócio, outros são baseados num prazo maior de retorno do investimento. Mas mesmo que você tenha um cenário extremamente confortável de relação com seus investidores, uma coisa é certa: Um dia o seu negócio terá que ser capaz de, no mínimo, pagar ao seu investidor, mesmo que esse seja você mesmo.

Além do volume de retabilidade que o seu negócio gera, um investidor também observa qual prazo de retorno do mesmo. O prazo de retorno (ou taxa de retorno) representa o tempo que o negócio conseguirá pagar o valor exato de investimento feito. Esse cálculo leva em conta o valor total do investimento dividido pela sua margem média de contribuição mensal (receita menos as despesas). Por exemplo, se você investe 200 mil num negócio que tem como margem de contribuição 8% de um faturamento bruto de 80 mil por mês, levará cerca de 31 meses para retornar o valor investido no negócio. É comum encontrar negócios com uma taxa de retorno saudável que varia de 24 a 36 meses.

Viver numa Senóide Cíclica

Devido aos altos e baixos que um negócio está sujeito, é comum que empreededores tratem os itens acima como uma onda senoidal. A existência dessa onda senoidal, faz com que o ato de empreender seja percebido como uma sequência de "Primeiro eu sofro, depois sofro menos, em seguida sobrevivo e depois ganho dinheiro". Porém, é necessário advertir que é um erro pensar que num negócio, só se passa um vêz por essas fases e que a partir de determinado tempo será só alegria e tranquilidade. Na verdade, pela natureza complexa existente no ambiente de negócio, é comum que essa senóide tenha um comportamento contínuo, quase que formando um ciclo. Eu diria que é de suma importância você entender que essa espécie de "senóide ciclica" é alimentada por cada decisão tomada pelo empreendedor em seu dia-a-dia.

"Entender" a "arte" da previsão de ovos

Nesse desafio de equalização das receitas e despesas, um dos exercícios constantes que um empreendedor faz, é o que podemos chamar de a arte da previsão de ovos. Essa previsão de ovos normalmente é baseada num pensamento básico do tipo: "Numa taxa de crescimento de X % por mês, em X meses teremos X clientes gerando um valor X de receita". Essa previsão se torna um importante elemento na gestão de um empreendimento, pois é comum que o empreendedor tome-a como meta e se organize em ações para atingi-la. O problema dessa questão é que infelizmente o antigo pensamento de que " não podemos contar com ovo que ainda está em lugares impróprios da galinha", continua se mostrando altamente verdadeiro nos empreendimentos. O exercício de imaginar quando o ovo vai sair desse lugar impróprio da galinha, é a chave para ser sobreviver e suplantar todos os desafios financeiros que expliquei acima. E o pior de tudo, é que de acordo com o comportamento senoidal que expliquei acima, o ovo ainda tem um estranho comportamento de às vezes sair e às vezes voltar para esse lugar impróprio da galinha (ou para qualquer outro lugar impróprio da sua empresa).

A fatídica conclusão

Como diria o saudoso Eliyahu M. Goldratt, a meta de qualquer empresa é ganhar dinheiro. E com base nessa afirmação, é possível sintetizar que por mais bonito que seja o seu discurso sobre empreendedorismo ou por mais descolada que a sua empresa possa ser, você precisa ter uma coisa mente: É necessário continuamente tomar decisões que favoreçam a rentabilidade para que, no mínimo, seja possível que se seu negócio sobreviva no complexo mundo empresarial que vivemos.

Ter um modelo de negócio capaz de gerar rentabilidade não significa que você, como um empreendedor, deve praticar uma abordagem de canibalização capitalista e ser uma pessoa que busque um modelo de crescimento financeiro a qualquer custo. Na prática, rentabilidade é um importante pilar para que sua empresa tenha a saúde financeira necessária para que você, como um empreendedor, tenha um ambiente suficientemente capaz de absorver sua vontade de criar algo inovador e com capacidade de transformar a sociedade.

Contudo, levar a rentabilidade em conta na hora de tomar suas decisões, implica em dizer que por muitas vezes você terá ações que vão contrariar muitas pessoas (inclusive você mesmo) ou gerar verdadeiros inimigos contra você ou contra o seu negócio. Por isso, gerar um negócio rentável, vai muito além de ter uma boa ideia ou usar um método específico para implementá-la. Passar pelo ponto de equilíbrio, vencer o ponto de fechamento e gerar rentabilidade em seu negócio, requer o desenvolvimento de determinadas competências emocionais (musculatura emocional) que serão necessárias para uma combinação de racionalidade e emoção para tomar decisões difíceis e estratégicas. Já mencionamos algumas dessas competências no texto "Startup virou coisa de moleque", "Você não leva jeito para empreendedor" e no artigo "Motivos errados para empreender".

Essas competências também serão vitais para um empreendedor, pois assim como todo o tipo de planejamento, o financeiro também não foge à regra de nem sempre dar certo, isso significa dizer que diferente do cenário ideal que você tenha desenhado, você vai passar mais vezes por pontos de fechamentos, seu ponto de equilíbrio pode demorar mais tempo para acontecer e seu lucro e rentabilidade podem não ser tão rápidos e generosos como você gostaria que fossem. Dessa forma, essas variações no seu planejamento financeiro, farão com que você tome cada vez mais decisões difíceis e com alto impacto financeiro e emocional no ecossistema do seu negócio.

Por isso, finalizo essa breve incursão sobre o mundo financeiro de um empreendimento, dizendo que além de validar se o seu cliente deseja e esteja disposto a pagar pelo produto que você oferece, a hipótese mais crítica e mais longa que você precisa testar é: Você é emocionalmente capaz de criar um negócio rentável?